Com a ascenção do narco-tráfico e do crime organizado, a mídia brasileira popularizou o conceito de “estado paralelo”. Era o início da tomada de consciência dos muitos brasis em que vivemos.
Em especial, gostaria de falar do Brasil privado, onde tudo está à venda para os poucos que podem comprar. Em primeiro lugar, vejo, cada vez mais, a tomada do território público pelo território privado. Tomemos os mega condomínios do tipo resort, por exemplo. A febra da burguesia agora é residir dentro de um grande clube, com piscina, sauna, sala de musculação, farmácia, mini (logo será mega) mercado entre muitas outras coisas que antes só eram encontradas no mundo de fora, no Brasil público.
Em Águas Claras, Distrito Federal, vemos alguns exemplares da nova megalomania habitacional. A idéia de “recando habitável” foi trocada pela de “paraíso da especulação imobiliária”. Um detalhe: isto aconteceu de forma tão extremada que em breve as ruas entrarão em colapso, não mais dando vazão à crescente enchurrada de carros.
Águas Claras foi construída ha muito pouco tempo. Portanto, não há nenhuma justificativa por parte do poder público diante do grande acúmulo de espigões de 20 a 30 andares muito próximos uns dos outros. Em termos de densidade de prédios, só perde para São Paulo. Só que as ruas internas de Águas claras foram projetadas, isto mesmo senhores, pro-je-ta-das, com apenas uma faixa para cada mão.
Na lógica do capital, os condomínios engolem o espaço público.
Outra característica marcante do Brasil-privado é a quantidade de vigilantes que trabalham para empresas de segurança. O efetivo da segurança privada já é 5% maior que a somatório do efetivo da PM de todos os estados do Brasil. O mais interessante: eles servem à minoria da população. Se os mais ricos precisam de tanta segurança, como vivem os mais pobres sem esta parafernália toda? Sobrevivem.
Ir às compras ha 20 anos atrás era ir à feira, ao mercado municipal ou à famosa rua do comércio. Agora as pessoas vão ao shopping. Com a expansão da Internet e do comércio eletrônico será que os templos do consumo resistirão por muito tempo? Em termos de custos, o Submarino não possui uma estrutura mais barata que o Shopping Morumbi? Agora somem os custos de todos os shopping centers do Brasil inteiro e comparem de novo com o mesmo Submarino.
Será que voltaremos a fazer compras na rua do comércio, no mercado municipal e na feira? Tomara.
Será que algum dia a consciência da imporância dos espaços públicos ecoará por nossa sociedade? Oxalá, tomara.